Como evitar a acumulação?

Considerando setenta ou oitenta anos guardando livros, fotos, brinquedos, enfeites, tapetes ou mesmo utilitários desgastados pelo uso, ocorre o acúmulo e a necessária armazenagem de tudo, seja expondo ou utilizando armários ou caixas. Porém, estamos vivendo em espaços cada vez menores, visto que a tecnologia tem nos oferecido mais alternativas de racionalização de áreas. Imóveis grandes onde moram poucas pessoas poderiam ser melhor utilizados, mas muitas vezes o argumento usado é a necessidade de conter muitos móveis e objetos “valiosos” no sentido sentimental. 

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O ser humano possui diferentes características culturais que determinam modos de morar ao longo da vida. Por exemplo: há etnias que são nômades e, portanto, permanecem nos lugares pelo tempo que consideram suficiente para algum objetivo específico. Carregam consigo objetos utilitários práticos, o que não elimina a beleza como necessidade estética. Outro caso é o de povos mais desenvolvidos em termos econômicos e para quem a praticidade determina o descarte de objetos inúteis, valorizando o consumo. Casas são construídas com elementos pré-fabricados e mobiliadas, praticamente uma montagem que pode se adequar a novas demandas ou ser trocada por outra opção melhor. Por fim, há aqueles que constroem ou compram imóveis considerando a permanência até o fim da vida, incluindo as futuras gerações nessa expectativa, e criam um lugar permanente de memórias, as quais representam valores que se acumulam. É o caso de muitos brasileiros.

Somos latinos e, portanto, passionais. Há pouca racionalidade quando a questão envolve descartar objetos inúteis, sejam de pequeno porte ou não. Assim, considerando setenta ou oitenta anos guardando livros, fotos, brinquedos, enfeites, tapetes ou mesmo utilitários desgastados pelo uso, ocorre o acúmulo e a necessária armazenagem de tudo, seja expondo ou utilizando armários ou caixas. Porém, estamos vivendo em espaços cada vez menores, visto que a tecnologia tem nos oferecido mais alternativas de racionalização de áreas.

Como já falamos em outro texto, imóveis grandes onde moram poucas pessoas poderiam ser melhor utilizados, mas muitas vezes o argumento usado é a necessidade de conter muitos móveis e objetos “valiosos” no sentido sentimental. Ainda mais complexa se torna essa situação quando a acumulação é doentia, pois há casos em que há sofrimento no descarte de quaisquer materiais, incluindo embalagens que naturalmente estariam destinadas ao lixo para serem recicladas.

A acumulação pode se tornar um transtorno psiquiátrico muito significativo para uma pessoa, pois afeta a família e implica na difícil aceitação social pela dificuldade em manter as condições de higiene adequadas para a convivência. Também torna o apego a quaisquer objetos uma forma de sofrimento difícil de reverter, exigindo intervenção profissional para superar suas consequências. Para não chegar a situações críticas, é preciso manter um limite para o que consideramos valores importantes, estabelecendo critérios que efetivamente justifiquem mantê-los. Valores comercial, afetivo ou utilitário são critérios significativos, sendo que tudo que orbita em torno deles pode ser descartado, incluindo móveis e máquinas, a não ser que configurem elementos de coleção.

Colecionar itens é uma forma de distração muito interessante e pode se tornar um modo de ganhar dinheiro, embora o objetivo principal seja o prazer de buscar novos componentes. Portanto, eleger um produto como colecionável é uma forma de evitar a acumulação de objetos inúteis, mantendo o controle do lugar.

*Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta formada pela UFRGS em 1982, com mestrado e doutorado pela FAU USP (2002 e 2006), além de MBA em Gestão de Projetos pela FGV (2008). É professora doutora no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo desde 2009, com disciplinas de Gestão de Projetos e Empreendedorismo na graduação e Habitação e Cidade para o Envelhecimento Digno no mestrado. Pesquisa sobre modos de morar na velhice, desenvolvendo caminhos para a reflexão sobre o tema utilizando metodologias colaborativas, em especial o Design Thinking. Participa do projeto Bairro Amigo do Idoso Mooca e Brás – São Paulo, pois acredita que o usuário deve ser protagonista das transformações contemporâneas, em especial a do aumento da longevidade. Texto reproduzido de sermodular.com.br.

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Redação Portal do Envelhecimento

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