A construção de uma vida

“Ganhei uma pequena ampulheta de vidro. De longe o punhadinho de areia colorido parece levitar. E quando manipulada, um fio cor-de-rosa escoa muito rápido. Tão rápido que o tempo que ele marca parece ser apenas o “agora”. Ou será que é do próprio tempo passar assim tão rápido?” (Critelli, 2007)

 

Rafael Ludovico Moreira* 

Podemos entender a vida como um conjunto de acontecimentos que se sucedem e demarcam uma trajetória. Durante essa caminhada fazemos planos, criamos expectativas, imaginamos, fantasiamos o que no momento entendemos como melhor. Mas o que é melhor? Como viver com plenitude?

Diversos autores elaboram teorias, esquemas, estratégias, como em uma receita de bolo esquematizam ingredientes (sentimentos e pessoas) e procedimentos (condutas que devem ser tomadas durante a vida para uma pseudo-plenitude).

Particularmente não acredito em receitas e penso que nem todos os planos satisfazem os nossos reais desejos e vem de encontro ao que precisamos realmente (sem contar que planejamento não garante estabilidade e/ou sucesso).

Ouço muito de pacientes ou cuidadores de pessoas fragilizadas questionamentos como “Por que isso está acontecendo?; Por que meu familiar deprimiu? Demenciou? Se esqueceu de mim?; O que acontecerá agora?; Como será depois?; Fizemos planos, e eles se esvaíram. Por quê?

Sempre respondo (acredito que de maneira não muito satisfatória para quem escuta), que infelizmente não tenho respostas, gostaria, mas não as tenho. Não é possível reduzir uma vida em frases simplórias, sem fundamentação, sem conhecer e compartilhar experiências. Penso que a vida é constante transformação e adaptação.

Para algumas culturas a borboleta pode significar transformação, transmutação, suas asas são coloridas, podem simbolizar beleza, seu voo pode representar inconstância, efemeridade, novos projetos. Algumas pessoas tatuam esse inseto em seu corpo buscando representar a capacidade de se readaptar.

Penso que podemos imaginar nossa vida, nossa caminhada, como feita de borboletas. Precisamos entender que adaptar-se às dificuldades lançadas em nossa caminhada fazem parte dessas constantes evoluções. Como dito anteriormente, não sei porque algumas coisas acontecem, mas elas aparecem e precisamos aprender a desenvolver essa plasticidade, essa capacidade de adaptação.

O tempo se esvai constantemente, nos consumindo, roubando momentos, no entanto todos sabemos (ou deveríamos saber) dessa invariável da vida. Não cabe reclamar pelo que nos acontece ou planejar avidamente um futuro incerto, cabe-nos entender como funciona essa grande engrenagem que se chama vida e saber colher os mimos que nos são presenteados, suspiros, sorrisos, conquistas, aromas, manhãs de primavera e noites estreladas, afinal, como já cantou o poeta:

“Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe?
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Ou nada sei.
[…]
Todo mundo ama um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz.
[…]
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.
(Sater, 1992)

Referências

Critelli, D. Folha de São Paulo – Outras ideias 04/01/2007)

Sater, A. Música Tocando em frente. Ano de lançamento 1992

 (*) Rafael Ludovico Moreira é Musicoterapeuta, mestrando em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e colaborador do Portal do Envelhecimento. Texto publicado originalmente no Blog do Centro-dia Angels4u  

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