Paraquedas ou crochê?

Velhos tatuados, surfistas e skatistas tornam-se exemplos de uma velhice ativa e feliz. Todo resto é resto. Envelhecer passou a ser um fardo! Minha admiração vai para as velhices capazes de encontrar emoção nas coisas pequenas e corriqueiras.

 

A TV anuncia uma reportagem imperdível para um domingo qualquer: Como envelhecer bem e tornar-se um velho ativo como o fulano que aos 80 anos tornou-se atleta, ou como beltrano que aos 90 pula de paraquedas. Após ouvir a chamada, encontro-me pensativa e perplexa com esta velhice que a mídia tenta, de toda maneira, fazer ser a desejada.

Um grande incômodo toma conta do meu ser e tento imediatamente desviar minha atenção da televisão que continua a anunciar os tais exemplos que, a todo custo, nos empurram goela abaixo idealizações de velhices.

Volto então a colocar o foco nos quadrados de crochê que faço, mas meu pensamento segue freneticamente num pedido de socorro já que este tipo de velhice não se enquadra em nada com a velhice que desejo viver.

Pronto! Estou condenada! Logo eu que estudo e busco compreender o envelhecimento como uma fase natural e positiva da vida. Sim! Eu disse positiva, mesmo sabendo que perdas e a finitude fazem parte deste período.

Vivemos em uma época que muito se preza as condutas saudáveis que favoreçam o longeviver. Esporte, pelo menos três vezes na semana, mesmo constatando que a tal da endorfina, em mim, não provoca nenhum tipo de prazer, apenas um cansaço chato que se arrasta durante todo tempo. Invejo quem se exercita pela manhã e diz ganhar, com isso, disposição para o resto do dia. Isso não acontece comigo.

Pular de paraquedas, correr muitos quilômetros, surfar, fazer loopings em montanha-russa? Jamais! Detesto qualquer forte emoção que não venha de um bom filme, de uma boa música ou aquela que sinto ao contemplar uma obra de arte.

O que a mídia não sabe é que ao valorizar este tipo de velhice, ela desvaloriza todas as outras existentes. Difícil tolerar tal falta de sensibilidade de uma imprensa que deveria lutar para inserir os diversos velhos numa sociedade que os acolha como seres existentes. Seja qual velho for. Viver ficou pesado!

Velhos tatuados, surfistas e skatistas tornam-se exemplos de uma velhice ativa e feliz. Todo resto é resto. Envelhecer passou a ser um fardo!

Percebo então que estarei sujeita a fazer parte de um grupo de velhos considerados sem graça e vistos pela sociedade como inativos só porque desejam uma vida tranquila. Desejar estar com as amigas de lãs e linhas fazendo crochê e tricô enquanto se joga conversa fora sobre a vida e sobre um viver leve e tranquilo parece não ser sedutor o suficiente para quem quer tanto da vida e muito mais ainda da velhice.

Vale dizer, para quem não sabe que essas são atividades que garantem um pensar ativo ao exercitar o cérebro a contar, a olhar os gráficos de crochê e associá-los aos pontos descritos e ao executá-los com domínio preciso das atividades motoras finas que requerem atenção e flexibilidade. O resultado do trabalho acontece através de uma felicidade pela realização de um produto final feito num vem e vai das lãs e linhas que tecem um pensar relaxado e cheio de prazer.

Na Arte podemos citar a artista japonesa Toshiko Horiuchi-MacAdam, considerada uma referência na arte japonesa, que faz uso do tricô e crochê para criar ambientes têxteis e interativos.

Com a ajuda de uma equipe, a artista cria almofadas, balanços e bolsas que compõe uma instalação onde mexer e puxar faz parte da interação prazerosa e divertida da obra com o público. Suas esculturas playground ocupam espaços de galerias e museus contemporâneos.

Nascida em 1940, a artista encanta os olhos, ao mesmo tempo em que entrega ao expectador a oportunidade de fazer parte da obra. É diversão para quem faz e para quem vê.

Ao entrar em contato com o trabalho desta artista e ao experimentar na prática esse tecer mágico de pensamentos e sonhos feito com agulhas e linhas, sinto-me privilegiada por aventurar-me neste tipo de afazer.

Aos velhos paraquedistas entrego todo meu respeito, mas minha admiração vai para as velhices capazes de encontrar emoção nas coisas pequenas e corriqueiras.

Quando envelhecer, em paz pretendo levar meus dias. Que sejam interessantes e compartilhados com pessoas do meu bem-querer. Mas se me convidarem para saltar de paraquedas, sem pestanejar vou dizer de prontidão: Obrigada, mas prefiro o crochê.

Em cada ponto sigo em frente tecendo uma velhice que, se o destino assim desejar, possa me presentear com a paz e a tranquilidade atropelada, um dia, pela minha mocidade.

Para conhecer mais sobre o trabalho da artista assista o vídeo:

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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