Em debate, o cuidado!

Caros leitores, estamos muito felizes pela receptividade com que a proposta deste blog foi aceita. Agradecemos a todos que enviaram e-mails e comentários, o que nos permitiu aprofundar e ampliar a discussão sobre o cuidado, sob os mais variados pontos de vista. Que rica experiência gerontológica interdisciplinar! Neste post, comentamos as respostas do Prof. Dr. Neilson Santos Meneses, docente da Universidade Federal de Sergipe, da Sra. Prosperina Gomes, uma grande líder da região leste da cidade de São Paulo, atuante em vários espaços de discussão e mobilização social, membro do Fórum do Idoso da Zona Leste há 20 anos, e também da Profa. Dra. Mônica Rodrigues Perracini, fisioterapeuta e especialista em Gerontologia pela SBGG, docente da Unicamp e da Unicid. Confira e participe!!

 

Para começar, o Prof. Neilson pondera que: “o cuidado de pessoas dependentes condiciona a vida de quem cuida, seja do ponto vista positivo, com vários aprendizados de vida (como a melhor compreensão da vulnerabilidade intrínseca a todo ser humano, a maior consciência sobre limites, a paciência, a perseverança, a aceitação e valorização maior da própria autonomia e independência), seja do ponto vista negativo, posto que já se demonstrou que cuidar de pessoas dependentes pode provocar nos cuidadores maiores níveis de ansiedade, estresse e depressão (Lopez, 2014) ”.

Para a Sra. Prosperina, o cuidado pode fazer bem ao cuidador “desde que ele goste do que faz”, “principalmente quando ele percebe resultado positivo e quando também ele é reconhecido”.

A Profa. Mônica Perracini ressalta outra faceta do cuidado: “a questão do cuidar ser uma escolha é delicada e deve ser ponderada. É complexa e multifacetada. Passa por questões existenciais, afetivas, espirituais, sociais, culturais e financeiras. Escolher cuidar é uma construção individual e coletiva. Individual porque depende da trajetória e do momento de vida desse cuidador e coletiva porque sofre influências culturais, sociais e morais. É mediada por laços afetivos ou senso de dever, ou os dois em maior e menor grau”.

Para o Prof. Neilson, “dependendo da situação de cuidado, o cuidador apresenta maiores chances de ser acometido por problemas de saúde, o que requer atenção quanto aos limites do cuidado. Esse contexto não significa diminuir a importância da cultura do cuidado, pois a solidariedade intergeracional é uma forma de defesa, de escudo para todos. Afinal, a maneira como cuidamos das pessoas acaba nos definindo como pessoa”.

Corroborando os trechos acima, há um estudo muito interessante realizado em Portugal (Aperta, 2015), em que a pesquisadora observou que cuidadores de idosos portadores de demência que valorizavam os aspectos positivos do cuidar, tais como a oportunidade de sentir-se mais útil, de sentir-se bem consigo mesmo e de dar mais valor à vida, também apresentavam um aumento da autopercepção com relação ao apoio recebido. Esta pesquisa nos alerta para a importância da atuação das redes do cuidado e sua potencialidade na valorização positiva do cuidado. Cuidar do outro sendo cuidado também, sendo ajudado e apoiado também, pode ser uma experiência gratificante e satisfatória.

O papel das redes de apoio no enfrentamento de situações estressantes ou desafiadoras tem sido amplamente discutido na literatura. Estudos mostram que a avaliação subjetiva do cuidador sobre a existência e a atuação da rede de apoio contribuem para desfechos favoráveis de sua saúde física e psíquica, a partir de estratégias mais exitosas de enfrentamento e resiliência diante dos percalços do cuidado de longa duração (Gonçalves et al., 2011).

O apoio ofertado pelas redes de cuidado pode advir dos profissionais que trabalham nos serviços de saúde e/ou da assistência social, da comunidade, tais como vizinhos, comerciantes locais, membros das associações de bairro, grupos de apoio de entidades religiosas, além dos amigos e familiares. Cabe nos questionarmos: o que podemos fazer para auxiliar o cuidador a visualizar e identificar sua rede de apoio? Qual o conceito de rede e quais os papéis da rede para este cuidador?

A Sra. Prosperina sugere que diante da impossibilidade da família e/ou do cuidador proverem o cuidado adequado, “devem procurar ajuda” para “prestação de apoio emocional, convivência social, acompanhamento da rotina de higiene pessoal, ambiental, nutrição e no deslocamento do idoso”. Ela alerta para a responsabilidade “da sociedade, e do Estado de garantirem a participação do idoso na comunidade, sua dignidade e bem estar”. Os órgãos públicos, em várias esferas da atenção à pessoa idosa, também compõem as redes de cuidados e podem (devem) colaborar no provimento e assistência às necessidades que culminam com a manutenção adequada do cuidado, domiciliar ou institucional, a partir de parcerias (de preferência estabelecidas em políticas públicas para ampliar a equidade da prestação de apoio) com a família e com a comunidade.

A distribuição das tarefas domésticas, do cuidado em si, o compartilhamento das responsabilidades, principalmente no que concerne à tomada de decisão, a possibilidade do descanso e do tempo para si, o apoio terapêutico, o acesso ao lazer, o apoio (ainda que à distância) da equipe de saúde, o esclarecimento quanto ao prognóstico e ao que ainda está por vir, o feedback positivo do indivíduo que está sendo cuidado e de outros conhecidos, são funções que podem ser ofertadas pelas redes de cuidado.

Conforme afirma o Prof. Neilson: “o estímulo às redes de apoio informais são um exemplo de alternativa, como de fato em países de envelhecimento mais avançado tem funcionado. Porém, o modelo de atenção centrado na pessoa, por parte do poder público, sociedade, comunidade de vizinhos e amigos de forma integrada parece ser um modelo ainda teórico a ser buscado na perspectiva de estimular o envelhecimento ativo”.

Quanto às ações para melhorar a atuação das redes do cuidado, a Sra. Prosperina propõe a elaboração de um plano de educação permanente construído por supervisão de saúde, considerando as particularidades de cada um, envolvendo os conselheiros, gestores, comunidade e suas lideranças”. Também sugere a “divulgação, capacitação, valorização, conscientização, estimulação através do diálogo…”

O Prof. Neilson sugere “implantar no Programa Saúde da Família o treinamento do agente de saúde em temas de gerontologia e geriatria básica, de modo a buscar um apoio formal a esse grupo populacional. Além disso, podem ser ofertadas ações educativas e maior difusão de informações que ajudem a combater visões estereotipadas sobre o processo de envelhecimento e a velhice”.

Para finalizar este post e fomentar mais participações, a Profa. Mônica comenta sobre uma pesquisa que ela orientou (Tomomitsu et al., 2014): “no trabalho com cuidadores idosos que cuidam de seus familiares idosos identificamos que ter uma rede de apoio para viver a velhice é tão importante para cuidadores idosos quanto para não cuidadores. Mas, para os cuidadores idosos outras questões passam a ter um peso significativo na satisfação com a vida, mesmo frente a uma rede de suporte adequada. Isso passa provavelmente pela maior vulnerabilidade física e emocional destes cuidadores, que também experimentam as mudanças do corpo e da psique frente aos desafios do próprio envelhecer e do envelhecer do outro”.

Quais são então as circunstâncias que permeiam as relações e vínculos estabelecidos (ou não) nas redes de cuidado? Como o cuidador avalia (e utiliza) a rede como ferramenta para exercer o cuidado? Como intensificar e otimizar a atuação das redes na manutenção do bem estar de quem é cuidado e de quem cuida? Dê sua contribuição! Faça parte desta rede!! Deixe seu comentário ou envie e-mail para rosamaria.garcia2016@gmail.com

Referências

Aperta JSC. Aspetos positivos do cuidar e o apoio social percebido nos cuidadores informais de pessoas com demência. [Dissertação de Mestrado]. Instituto Politécnico de Bragança. Escola Superior de Saúde. Bragança, Portugal. 2015.

Gonçalves TR, Pawlowski J, Bandeira DR, Piccinini CA. Avaliação de apoio social em estudos brasileiros: Aspectos conceituais e instrumentos. Ciência e Saúde Coletiva, 2011;16 (3): 1755-1769.

Lopez PM. ¿Qué se Entiende por Generación Sándwich?, 2014. disponível em http://patriciamerinolopez.blogspot.com.br/2014/09/que-se-entiende-por-generacion-sandwich.html

Tomomitsu MRSV, Perracini MR, Neri AL. Fatores associados à satisfação com a vida em idosos cuidadores e não cuidadores. Ciência & Saúde Coletiva, 19(8):3429-3440, 2014.

 

 

Rosamaria Rodrigues Garcia

Rosamaria Rodrigues Garcia

Fisioterapeuta, Doutora em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, na área de Serviços de Saúde Pública (2016), Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (2002), Especialista em Gerontologia pela SBGG – Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2013), possui especialização em Fisioterapia em Geriatria e Gerontologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2000). Atualmente é Docente da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e diretora técnica do Núcleo de Estudos do Processo de Envelhecimento do Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia José Ermírio de Moraes. Leciona desde 2000 em Cursos de Graduação e Pós Graduação. Tem experiência clínica em Fisioterapia em Geriatria e Gerontologia e Fisioterapia em Saúde Coletiva, além de gestão de equipe interdisciplinar e de Centros de Reabilitação, atuando principalmente nos seguintes temas: fisioterapia, idoso, saúde coletiva, saúde pública, equipe multidisciplinar, gerontologia e instituição de longa permanência para idosos. E-mail: rosamaria.garcia@uol.com.br

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