Como tornar o cuidado um Banquete, para quem é cuidado e para quem cuida?

Compreender a motivação para o cuidado e o alimento que nutre as relações pode ser a chave para tornar o cuidado e o envelhecimento verdadeiros banquetes diários. Para tanto, conhecer e utilizar-se da rede de cuidados é essencial. Como um cuidador pode considerar o cuidado um banquete para si próprio, se conta apenas consigo mesmo para exercer todo cuidado?

 

Em resposta ao texto “rede de cuidados” publicado no blog, o Prof. Dr. Ivanaldo Santos, do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERN nos brindou com uma reflexão, intitulada “O Banquete de Platão e o envelhecimento”, cujos trechos (em destaque), comento a seguir:

“Por volta de 385-380 a. C., em Atenas, o filósofo Platão escreveu um dos mais belos, poéticos e importantes textos do Ocidente. Trata-se d’O Banquete, que narra um encontro de amigos na casa do poeta e agitador cultural Agatão. Poucas vezes, na história universal, viu-se uma conversa entre figuras históricas tão importantes, do peso, por exemplo, de Sócrates, Agatão, Erixímaco e Aristófanes.”

“Os participantes do encontro tomavam vinho até se embriagar, e comiam principalmente frutas e pão – daí vem o título do diálogo, O Banquete. O tema principal do debate é o amor, ou seja, a amizade (philia), mas também se debatia sobre a poesia, a literatura, como cultivar amizades e a arte do bem viver, ou seja, ter amigos, ser feliz, estar em paz consigo mesmo e com a comunidade (polis).”

“Platão, em O Banquete, aponta uma postura, que a médio e longo prazo, as sociedades ocidentais poderão experimentar com relação ao processo de envelhecimento. Trata-se de experimentar a vida, experimentar o cotidiano, como se fosse um banquete, ou seja, é necessário que as novas gerações se preparem para o envelhecimento. Justamente o envelhecimento, que é uma conquista da sociedade moderna.”

Refletindo sobre as redes de cuidado, podemos pensar: o que alimenta uma rede? De que forma cada indivíduo nutre sua rede? As novas gerações vêm aprendendo a ampliar redes virtuais, adquirir novas “amizades”, mas qual a diferença, para as redes de cuidado, entre a rede alimentada em O Banquete, e as amizades virtuais do século XXI?

É possível cuidar virtualmente, seja provendo apoio emocional, espiritual, ou cognitivo. Uma publicação das Organizações Unidas valoriza a vantagem do alcance ilimitado do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na prestação de apoio em várias situações, minimizando o efeito impeditivo da localidade geográfica na organização das redes de cuidado, assim como da presença física dos componentes da rede (Leigh et al., 2011).

Por outro lado, há dimensões do cuidado que exigem um cuidador presencial e este aspecto também merece uma reflexão:  como nutrir a rede de cuidados que provê o toque, o abraço, o cuidado com o corpo, com a dor, com o desconforto físico, com o suprimento de necessidades físicas, psíquicas e sociais, tão presentes na velhice?

Conforme aponta o Prof. Ivanaldo: “É necessário conduzir o envelhecimento a ser uma experiência de Banquete, ou seja, de encontro de amigos, momentos agradáveis para conversar, para tomar um drink, falar da poesia, da arte, da família e dos sonhos. A velhice deve ser um momento de congratulação, de encontro de amigos, de festividade e de alegria. Platão demonstra que a vida é um banquete e esse banquete deve ser experimentado em todos os momentos, inclusive na velhice.”

Para vivenciar a experiência da velhice como um banquete, o que podemos fazer ao longo da vida? Estamos falando de cultivar durante todo o curso de vida relações de confiança, de gratidão, de amor, de amizade, de compaixão, de cumplicidade e de afeto. O significado e a qualidade das relações para cada indivíduo contribui para a força dos laços estabelecidos. Cuidar bem do outro exige uma escolha….então, o que motiva o outro a cuidar? Laços fortes? Sentimentos de culpa? Obrigação? Atender às próprias necessidades de sentir-se útil? Ter um papel na família, ou na sociedade?

Como tornar o cuidado um Banquete, para quem é cuidado e para quem cuida? Como seria o cuidado, para o cuidador e para quem recebe o cuidado, se as relações de confiança, de gratidão, de compaixão e de afeto fossem nutridas durante o “cuidar”? Como seria o cuidado, para o cuidador e para quem recebe o cuidado, se as necessidades de ambos fossem atendidas durante o “cuidar”? Talvez um Banquete

Compreender a motivação para o cuidado e o alimento que nutre as relações pode ser a chave para tornar o cuidado e o envelhecimento verdadeiros banquetes diários. Para tanto, conhecer e utilizar-se da rede de cuidados é essencial. Como um cuidador pode considerar o cuidado um banquete para si próprio, se conta apenas consigo mesmo para exercer todo cuidado? Sabemos que cuidar do outro não satisfaz todas as necessidades físicas, psíquicas e sociais de um cuidador. É evidente que o cuidado precisa ser dividido, compartilhado com outros membros da rede. Mas o cuidador enxerga sua rede? Permite que sua rede colabore com o cuidado?

Este é um espaço de reflexão, de opinião….uma roda de conversa virtual, apropriada para discutirmos as questões desafiadoras que permeiam o envelhecimento. Participe!! Dê a sua contribuição!! Faça um comentário e o envie para o e-mail rosamaria.garcia2016@gmail.com. Muito obrigada.

Referências

Leigh, R., Horton Smith, D., Giesing, C., José León, M., Haski-Leventhal, D., Lough, B. J., … & Hockenos, P. (2011). State of the world’s volunteerism report, 2011: universal values for global well-being.

Rosamaria Rodrigues Garcia

Rosamaria Rodrigues Garcia

Fisioterapeuta, Doutora em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, na área de Serviços de Saúde Pública (2016), Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (2002), Especialista em Gerontologia pela SBGG – Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2013), possui especialização em Fisioterapia em Geriatria e Gerontologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2000). Atualmente é Docente da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e diretora técnica do Núcleo de Estudos do Processo de Envelhecimento do Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia José Ermírio de Moraes. Leciona desde 2000 em Cursos de Graduação e Pós Graduação. Tem experiência clínica em Fisioterapia em Geriatria e Gerontologia e Fisioterapia em Saúde Coletiva, além de gestão de equipe interdisciplinar e de Centros de Reabilitação, atuando principalmente nos seguintes temas: fisioterapia, idoso, saúde coletiva, saúde pública, equipe multidisciplinar, gerontologia e instituição de longa permanência para idosos. E-mail: rosamaria.garcia@uol.com.br

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