Eu não estou envelhecendo “bem”, estou ficando velha mesmo!

“Você não é velha!”, é o que dizem as pessoas quando me descrevo dessa maneira. Eu tenho 74 anos, várias doenças relacionadas com a idade e uma boa quantidade de pelanca e rugas. Se eu não sou velha, quem é?

 

Erica Manfred*

As pessoas pensavam em envelhecer como parte da progressão natural da vida desde o nascimento até a morte. Não mais. Agora vamos diretamente da meia-idade para você é-apenas-tão-velho-quanto-você-se-sente. “Velhice” foi eliminada do nosso vocabulário. “Você não é velha!”, é o que dizem as pessoas quando me descrevo dessa maneira. Eu tenho 74 anos, várias doenças relacionadas com a idade e uma boa quantidade de pelanca e rugas. Se eu não sou velha, quem é?

Hoje, devemos envelhecer “bem”. O termo está repleto de expectativas que eu, por exemplo, não consigo atingir. Se eu pertencesse a uma geração anterior, seria esperado que eu me aposentasse para viver na famosa cadeira de balanço na varanda – mas meus companheiros idosos não estão nesse caminho. Os idosos do século 21 esperam ser capazes de esquiar, jogar tênis, correr maratonas, andar de bicicleta, dançar e até mesmo saltar de pára-quedas. Hoje em dia, se você diminuir o passo por conta da idade, é sua culpa. Isso significa que você não está comendo direito, se exercitando, tomando os remédios certos, pensando positivo o suficiente…

Era para a geração Boomer viver rápido e morrer jovem. Ainda estamos vivendo rápido, mas não estamos morrendo jovens – então vivemos o mais rápido possível, como uma forma de fingir que não vamos morrer de jeito nenhum. Infelizmente, aqueles de nós que estão sofrendo os estragos físicos e mentais da idade somos um lembrete desconfortável para os mais jovens de que eles também vão envelhecer um dia.

Eu sou bombardeada diariamente com histórias de idosos que fazem coisas incríveis em idades avançadas – correr maratonas aos 85, ensinar yoga aos 90, bungee jump aos 96. Estas histórias são supostamente inspiradoras. Acho-as deprimentes. Eu nunca farei nenhuma dessas coisas. O resto de nós idosos – aqueles que realmente sofrem de doenças comuns de envelhecimento, como artrite, doença cardíaca ou enfisema – se sentem deixados para trás na corrida louca para nunca envelhecer. Eu quero ficar em casa, porque neste mundo de envelheça-bem-ou-você-não-tem-valor, me esforçar para acompanhar essas pessoas é humilhante.

Muitas pessoas em seus 70 anos não têm limitações físicas. Elas podem fazer tudo o que fizeram aos 50 anos, e mais poder para elas, mas não ser uma delas faz com que eu e muitos outros tantos idosos nos sintamos como párias entre nossos pares.

Eu tenho uma amiga de 77 anos de idade com estenose espinhal, uma doença comum e dolorosa entre as pessoas mais velhas. Seus pés são instáveis e ela não consegue se mover sem seu andador. Ela é muito sociável, mas se recusa a sair porque ela tem vergonha de ser vista com o seu andador. O preconceito em relação ao envelhecimento que faz com que ela fique com vergonha de ser vista com um andador acaba marginalizando as pessoas mais velhas que já estão segregadas do ‘comum’. Não é de admirar que a solidão esteja se tornando uma epidemia entre os idosos.

Mesmo comunidades de aposentados se anunciam para o “idoso ativo”. Se você não é ativo, é melhor você encontrar outro lugar para viver.

Está na hora da mídia parar de tentar atingir o maior número de cliques com suas histórias de idosos se envolvendo em esportes radicais e se concentrar em celebrar idosos que encontram uma maneira de viver bem, apesar das limitações físicas – pessoas como Carmen Herrera, que vendeu sua primeira pintura aos 89, ou Barbara Beskin, que conseguiu seu trabalho ideal como uma designer industrial em Silicon Valley aos 90 anos; Ou mesmo idosos como Joe Bartley, que ficou entediado com a aposentadoria e ficou muito feliz por ser contratado como garçom em um restaurante local aos 89 anos.

Está na hora também de nós idosos pararmos de julgar uns aos outros por quão “jovem” agimos ou tentamos ser.

Cito Martin Luther King: “Tenho um sonho de que um dia os mais velhos viverão em uma nação onde eles não serão julgados pela tensão de seus músculos, mas pelo conteúdo de seu caráter.”

*Erica Manfred é jornalista, ensaísta e humorista que escreve sobre tudo, desde a odontologia ao divórcio e à ficção fantástica. Texto reproduzido de http://seniorplanet.org/im-not-aging-well-im-getting-old-goddammit/. Tradução livre de Sofia Lucena.

Sofia Lucena

Sofia Lucena

Estudante de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos (SP). Colabora com o Portal do Envelhecimento fazendo traduções de temas relacionados à longevidade humana. E-mail: sofiacortel@hotmail.com

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