A fonte da donzela

Na Suécia, século XIV, a população oscilava entre o cristianismo e o paganismo. Töre (Max von Sydow) e Märeta (Birgitta Valberg) formam um casal que tem uma propriedade rural. Eles são cristãos fervorosos e incumbiram Karin (Birgitta Pettersson), sua filha, uma adolescente de quinze anos, de levar velas para a igreja da região e acendê-las para a Virgem Maria. No caminho da igreja Karin é estuprada e assassinada por dois pastores de cabras. Quando a noite chega ironicamente os criminosos vão pedir comida e abrigo para os pais de Karin.

  

A partir de uma lenda sueca da idade média, Ingmar Bergman (Suécia, 1918-2007) ultrapassa todos os limites aceitáveis da crueldade e brutalidade no filme “A Fonte da Donzela”. No decorrer da história temos uma leve lembrança da ingênua “Chapeuzinho Vermelho”, mas, aqui, a nossa “Donzela” será marcada por uma tragédia de contornos amargos e um insustentável questionamento da fé, tema recorrente em outros filmes do cineasta. A belíssima fotografia, realizada por Sven Nykvist, ameniza a dor na sucessão de belas imagens que se contrapõem ao dramático desfecho. Um roteiro concebido na violência, na corrupção da pureza e suas consequências “na fé e pela fé”.

Em algum lugar da Idade Média, a fervorosa família cristã do fazendeiro Töre e sua penitente esposa Märeta vive mais um período de celebração da sexta-feira santa.

Frida, a velha senhora que trabalha na propriedade, pensa: Senhor, quase pisei neles na escuridão (os pintinhos que ela, cuidadosamente, protege em seu colo). Com um deles na mão, ela lamenta: Pobrezinho, viva a sua vida miserável como Deus permite que nós todos vivamos.

Para a santa data, as velas devem ser levadas por uma Virgem, “De uma Virgem para outra Virgem”: a imaculada, aquela que ainda não teve as mãos de um homem em seu corpo, que ainda não foi tocada pelo desejo, pelo pecado da carne. É claro que a pagã e invejosa Ingeri, não está habilitada para um feito divino como este, menos ainda a velha Frida que já carrega os anos cruéis da vida no coração e na alma.

Karin é perfeita para receber uma honraria como esta e além disso, tem a alegria e a generosidade em todo o seu ser. É a fé divina da Virgem e, quanto a isto, não há o que questionar. A refeição está servida, mas antes, eles rezam: “Que o Senhor abençoe o pão nosso de cada dia. Amém”.

Assim, Karin e Ingeri seguem o caminho. A imagem que fica é: uma floresta com duas jovens montadas em seus cavalos; Karin a frente, Ingeri atrás, um lago e a música que coroam o cenário encantado.

O contraste entre luz e sombra da fotografia em preto e branco extrapola os limites do esmero técnico e se estende ao drama da donzela. Karin é a luz, é a felicidade, é o fruto iluminado de um lar construído nos mais rígidos preceitos cristãos, é a filha querida de um pai compreensivo e de uma mãe protetora. Ingeri é a desgarrada, a desafortunada, a desgraçada que emprestou seu corpo a um homem sem a bênção de Deus, o peso que deve ser suportado pela tolerante família cristã. Karin é retratada sob o sol, sorridente e bela, enquanto Ingeri aparece sempre na penumbra, arqueada e tensa. Ambas são o oposto uma da outra, mas quando a tragédia acontece e os estilhaços de suas realidades são recolhidos, percebe-se que as essências das duas não são assim tão diferentes. O preço a ser pago por tal revelação é alto, assim como o remorso e o arrependimento tão presentes na obra de Bergman.

Um velho, um tanto estranho, recolhido em seu casebre, nota a presença das moças e, curioso, decide abordá-las. Parece que Ingeri tem um pressentimento. A pecadora está mais próxima da desgraça, por isso, talvez, fareje que algo pode acontecer a qualquer momento. Aquele que convive diariamente com a dor da perdição percebe mais facilmente o perigo iminente.

Ingeri, assustada, tenta pegar seu cavalo, mas não consegue e corre, ela cai, o velho a observa com um olhar irônico. Ela foge, corre pela floresta.

Enquanto Karin segue viagem, agora sozinha, três irmãos – dois homens e um menino – a espreitam, tomados pelo desejo, marcados pela cobiça: eles a veem como uma presa, prestes a ser capturada. Inocentemente, Karin os cumprimenta.

– Karin: Preciso levar as velas da Virgem Maria para a igreja.

– Um deles: Para a missa matutina? Se perdeu a missa, por que a pressa? Se sua mãe lhe deu alimento, significa que deve comê-lo. Meu irmão diz que podemos ir a uma clareira ensolarada. (Ela concorda, ele toca o instrumento e todos seguem juntos).

Enquanto isto, Ingeri foge, quando, subitamente, os vê. Sentados no chão como num piquenique, Karin divide o pão em quatro partes, numa cerimônia de comunhão com o mal, com seu algoz. Mais tarde, a jovem, amedrontada pelos olhares, diz: “Estou indo para a igreja com as velas da Virgem”.

Abandonada pela Santa, Karin fica destinada a própria sorte, ao inevitável, a temida violação do corpo e da alma. A menina pressente o pior. Ela pega seu casaco, seu cavalo e sai, muito assustada, mas eles impedem sua partida.

Karin é atacada brutalmente, estuprada pelos dois irmãos, o garoto observa tudo. Ela luta, mas não pode com a força dos dois homens. Depois da violência, a menina é tomada pelo olhar perdido, é o nada que se instala – a desesperança.

Karin ainda tenta se levantar, chorando, derrotada, o sol ilumina o seu rosto, a voz não sai, apenas gemidos. Desesperado, o segundo irmão a golpeia, Karin o olha uma segunda vez e morre. Eles a despem, apenas o saiote permanece. Os irmãos vasculham tudo, roubam tudo que podem.

Não se trata apenas da crueldade humana – sua origem, suas raízes – a “Fonte da Donzela” choca pelo modo como Bergman captura os rostos, os atos, as reações e o arrependimento de seus personagens.

A natureza também tem seu lugar e contrasta com o pior do humano: um sol que, justamente naquele momento, aparece com toda sua força para iluminar o sofrimento e a dor causados pela violação. O tema em si do estupro já é capaz de causar revolta por si só, mas o que realmente faz a diferença é a presença de uma criança, do garoto, no grupo de párias que causa a desgraça da família cristã. É através dela que uma grande parte de toda a miríade de emoções conflitantes vem à tona, em que a perplexidade diante do ato desumano, o remorso natural (que aflora no menino, mesmo que ele mal tenha discernimento da gravidade do fato) e o objeto do ódio vingativo encontram seu ápice.

Começa a nevar, são os flocos de Deus, as lágrimas pela morte da Virgem. O menino olha para o céu, ele come o pão, mas tudo tem um gosto ruim. Ele olha o corpo de Karin, seus olhos, vai até ela, tenta cobri-la com terra, mas fica com medo e foge.

Na casa da jovem, o pai espera seu regresso, ansioso. Ironicamente, chegam os três irmãos pedindo abrigo. Eles nem desconfiam que sua vítima vivia naquela propriedade. Esses são os caminhos de Deus.

Bergman, nos momentos mais tensos da história, fixa a câmera, como se ela tivesse por dever penetrar nos personagens para extrair suas vísceras, seu “ser” mais profundo, sua sombra escondida. O sofrimento está lá, em cada semblante, em todos os cômodos, em todos os olhares perdidos em meio ao desespero provocado pelo próprio homem.

Finalmente, Märeta, a mãe, encontra nos guardados dos três homens, vestígios da filha: chorando, tomada pelo ódio, ela volta e tranca a porta onde eles dormem. Já ciente de toda a verdade – Ingeri revela como tudo aconteceu –, com um olhar vidrado de ódio e desejo de vingança, o pai inicia o ritual.

O dia amanhece. Movido pelo ódio, Töre luta desesperadamente com a natureza, uma parte de Deus que viu tudo, toda brutalidade do ato sofrido na carne e no espírito da sua amada filha. Possuído por uma força descomunal, ele consegue derrubar a árvore, derrota o fruto da terra, pega a espada e corta seus galhos. Esta mesma natureza, agora vai ajudá-lo a derrotar o inimigo, os galhos representarão “as mãos de Deus” que a tudo alcança.

Começa o ritual de purificação.

Vestido para o abate, o pai ferido vai ao encontro dos assassinos. Abre a porta silenciosamente. Todos dormem. Ele pega, com cuidado, a sacola dos pastores e encontra o casaco de sua filha, a saia, os sapatos e outras vestes. Enquanto faz isso, Töre os olha. Como foram capazes? Pega o punhal e o finca na mesa. A névoa, acompanhada de um dia que amanhece, invade o local – o galo canta e a vingança começa.

O pai, olha – todos estão mortos, ele examina suas mãos, chora e diz: “Deus tenha piedade de mim.”

Max von Sydow representando Töre, nos proporciona uma interpretação digna dos abençoados. O ator assume seu personagem com uma austeridade quase heróica, para depois subvertê-la, sucumbindo ao desespero de uma situação literalmente insustentável, numa performance assustadora, marcada por sequências memoráveis de dor e sofrimento. As consequências de suas ações conduzem o drama a uma catarse, um desfecho poético, que tenta diluir a sensação de revolta, mas não aliviá-la. Um filme que leva o espectador às lágrimas, sem ser piegas nesta colocação: muitas vezes as lágrimas são necessárias.

Agora todos estão reunidos e rumam apressados à procura de Karin, como em romaria, em procissão, à procura do corpo da Virgem.

– Märeta: Eu a amava mais que a Deus. Então ela se voltou para você. Passei a odiá-lo.

– Töre: A culpa é minha! Não é só sua, Märeta. Só Deus pode julgar.

Finalmente eles chegam à Karin, a Virgem sem vida. Märeta se aproxima, os outros mantêm uma distância respeitosa. Töre e Märeta a acariciam, tentam limpá-la da terra, delicadamente. Os dois choram sobre o corpo. O pai se levanta, anda, olha para o céu, para Deus e cai derrotado, as mãos sobre o rosto e diz: “O Senhor viu. O Senhor viu. A morte de uma criança inocente e a minha vingança. O Senhor me permitiu! Não entendo Você! Não entendo Você! No entanto, agora eu imploro o Seu perdão. Não sei como recuperar a paz sozinho. Não conheço outro modo de viver. Eu prometo Senhor, aqui, perante o corpo de minha filha eu lhe prometo que construirei uma igreja, como penitência pelo meu pecado. Ela será construída aqui. De pedra firme e com minhas mãos!”

Pai e mãe levantam juntos o corpo da amada e, ao fazer isso, eles notam que uma fonte nasce no local onde a menina foi morta. Água limpa, pura, sagrada, um milagre da Virgem. Com a água sagrada, Märeta banha o rosto da filha inocente. Todos rezam, perplexos, admirados com a força de Deus.

É… Ele se fez presente.

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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